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O Lado B do Colecionismo #3: Raridade ou Vaidade?

Saudações Cybertronianas...


Museu do Videogame Itinerante | BGS 2018.
Museu do Videogame Itinerante | BGS 2018.

Recentemente, estava pensando sobre o que realmente torna uma coleção valiosa. Seria a dificuldade de encontrar determinada peça? O preço alcançado no mercado? A história daquele objeto? Ou o reconhecimento que ele pode proporcionar ao seu proprietário?


Durante essa reflexão, recordei uma experiência vivida em 2018, na Brasil Game Show — a BGS. Ao visitar o espaço do Museu do Videogame Itinerante, deparei-me com um antigo Jogo dos Transformers.



Ao segurá-lo, minha primeira reação não foi pensar em seu valor de mercado ou investigar o quanto aquele item poderia ser raro. O que me chamou a atenção foi a história que ele parecia carregar: Quantas crianças teriam brincado com aquele jogo? Quantas tardes de diversão ele teria proporcionado? Quantas lembranças poderia despertar em pessoas que, assim como eu, cresceram acompanhando o universo de Transformers?


O sorriso registrado naquela fotografia não nasceu da posse daquele objeto. O jogo nem sequer fazia parte da minha coleção. A alegria surgiu do encontro com algo capaz de estabelecer uma conexão imediata com a memória, com a infância e com uma história compartilhada por diferentes gerações de fãs. Foi justamente essa lembrança que me levou à pergunta deste terceiro capítulo: O valor de uma coleção está na raridade ou na vaidade?


Desde que o ser humano começou a colecionar, a raridade sempre exerceu um fascínio especial. Seja uma moeda antiga, um selo, uma obra de arte, uma história em quadrinhos ou uma figura de Transformers, existe uma satisfação muito particular em encontrar aquilo que poucos possuem.


Uma peça rara pode representar anos de procura, pesquisa, planejamento e dedicação. Pode marcar a conclusão de uma linha, preencher uma ausência importante na estante ou materializar um desejo que acompanhou o colecionador durante grande parte de sua vida.

Por isso, a raridade não está necessariamente associada apenas ao valor financeiro. Um objeto pode ser raro porque poucas unidades foram produzidas. Pode ter sido distribuído exclusivamente em determinado país, evento ou período. Também pode ser considerado raro porque sobreviveu ao tempo em boas condições.


No entanto, existe ainda uma raridade afetiva. É aquela que não pode ser medida por catálogos, avaliações comerciais ou números de produção. Uma peça comum para o mercado pode ser insubstituível para quem a recebeu de uma pessoa querida, comprou com o primeiro salário ou encontrou depois de muitos anos procurando.


Nesse sentido, duas peças visualmente idênticas podem ter valores completamente diferentes para seus proprietários. Mas, junto com a raridade, surge outro elemento muitas vezes tratado com certo desconforto dentro do colecionismo: a vaidade!


E a vaidade não precisa ser compreendida como algo exclusivamente negativo. Sentir orgulho da própria coleção é natural. Ela representa escolhas, conquistas, conhecimento, investimento e tempo. Em muitos casos, revela anos de dedicação a determinado universo, personagem, fabricante ou linha de produtos.


Gostamos de organizar nossas estantes, fotografar as peças, apresentar novas aquisições e compartilhar descobertas. Também sentimos satisfação quando alguém reconhece o cuidado, a pesquisa ou o esforço empregado na construção de uma coleção.


A vaidade pode, inclusive, estimular a preservação, a criatividade e o aprimoramento. Ela pode motivar o colecionador a melhorar a exposição das peças, estudar sua história, desenvolver novas formas de fotografia, criar ambientes temáticos, produzir conteúdo ou compartilhar conhecimento com outras pessoas. Em certa medida, desejar que uma coleção seja vista e admirada também é uma forma de comunicação.


Uma coleção fala sobre quem somos. Ela revela nossos interesses, nossas referências culturais, nossas memórias e até os diferentes momentos de nossa trajetória. Expor uma coleção significa, de alguma forma, apresentar uma parte de nós mesmos. Por isso, talvez raridade e vaidade não sejam forças necessariamente opostas.


Uma peça rara pode despertar orgulho. O orgulho pode incentivar o compartilhamento.

E o compartilhamento pode permitir que outras pessoas conheçam objetos, histórias e curiosidades que talvez permanecessem restritos ao espaço privado do colecionador.


As redes sociais ampliaram significativamente essa dimensão pública do hobby. Atualmente, uma nova aquisição pode ser fotografada, publicada e comentada por centenas ou milhares de pessoas em poucos minutos. Essa visibilidade trouxe contribuições importantes para o colecionismo.


Hoje podemos acompanhar lançamentos internacionais, conhecer coleções de diferentes países, descobrir peças antigas, aprender técnicas de conservação, montagem e customização, além de estabelecer amizades com pessoas que compartilham os mesmos interesses.


Ao mesmo tempo, o ambiente digital introduziu novos parâmetros de reconhecimento.

Curtidas, visualizações, comentários, compartilhamentos, produtos exclusivos e acessos antecipados passaram a integrar a experiência de muitos colecionadores. O objeto continua importante, mas sua circulação pública também adquire valor.


Nesse contexto, algumas perguntas podem nos ajudar a compreender nossa própria relação com o hobby:


  • Quando compartilhamos uma peça, estamos celebrando uma conquista?

  • Queremos apresentar uma história?

  • Desejamos contribuir com a comunidade?

  • Buscamos reconhecimento?

  • Ou existe um pouco de tudo isso?


Essas possibilidades não são excludentes. Podemos compartilhar uma aquisição porque gostamos dela, porque queremos registrar aquele momento e porque sentimos orgulho de possuir algo especial. Buscar reconhecimento também não anula a paixão pelo colecionismo.


Todos nós, em diferentes níveis, gostamos de ver nosso esforço reconhecido. Isso acontece no colecionismo, na arte, na produção de conteúdo, na vida acadêmica, no esporte e no trabalho. Talvez o ponto central não esteja em negar a vaidade, mas em compreender o espaço que ela ocupa em nossa experiência.


Uma coleção pode proporcionar reconhecimento, mas esse reconhecimento não precisa ser construído pela comparação ou pela desvalorização das escolhas alheias. Afinal, não existe apenas uma maneira legítima de colecionar:


  • Há quem procure peças extremamente raras.

  • Há quem prefira itens acessíveis.

  • Há quem mantenha tudo lacrado.

  • Há quem abra as embalagens imediatamente.

  • Há quem organize suas figuras em vitrines.

  • Há quem monte, customize, fotografe ou crie dioramas.

  • Há quem concentre sua coleção em um único personagem.

  • Há também quem reúna diferentes linhas, universos e escalas simplesmente porque cada objeto despertou algum tipo de interesse.


No universo de Transformers, essas possibilidades são ainda mais amplas. Existem colecionadores dedicados à G1, Masterpiece, Movieverse, model kits, quadrinhos, games etc.

Nenhuma dessas escolhas torna uma coleção automaticamente superior a outra.


Uma coleção numerosa pode ser construída com enorme dedicação. Uma coleção pequena pode apresentar uma curadoria extremamente cuidadosa. Uma peça cara pode representar uma conquista pessoal, enquanto um item aparentemente simples pode carregar uma história impossível de precificar. Por isso, talvez o valor de uma coleção não esteja exclusivamente na raridade nem somente na vaidade.


A raridade pode tornar uma peça desejada. A vaidade pode nos motivar a cuidar, organizar e compartilhar aquilo que conquistamos. Mas é o significado atribuído aos objetos que transforma um conjunto de peças em uma coleção verdadeiramente pessoal.


Ao recordar aquela fotografia de 2018, percebo que eu não precisava possuir o antigo Jogo dos Transformers para reconhecer seu valor. Naquele momento, o objeto cumpriu outra função: despertou curiosidade, alegria e memória. Talvez essa seja uma das maiores forças do colecionismo.


Os objetos permanecem materiais, mas as relações que construímos com eles ultrapassam o plástico, o papel, a resina, a embalagem ou o preço indicado pelo mercado. Colecionar também é preservar histórias. É reconhecer trajetórias. É estabelecer conexões. É encontrar, em um objeto produzido muitos anos atrás, algo que ainda consegue nos fazer sorrir no presente.


A raridade pode fazer uma peça se destacar em uma coleção. A vaidade pode fazer com que sintamos orgulho de apresentá-la. Mas são as histórias, as experiências e as emoções associadas a cada objeto que fazem uma coleção permanecer importante quando os lançamentos deixam de ser novidade e os valores de mercado mudam.


Talvez o verdadeiro valor não esteja apenas no que possuímos. Talvez esteja também naquilo que cada peça nos permite recordar, sentir e compartilhar.


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